Eu tinha, há vinte anos, uma perspectiva muito diferente do mundo - um metro mais perto do chão, por aí. No meio daquelas cabeças na Felipe Schimitt não podia contar muito com a visão como defesa do acaso; isso explica porque segurava mais firme a mão do meu pai quando ouvia num megafone uma voz rouca e grave falar do Bonzão. O Bonzão tinha, sim, ofertas especiais, minha mãe até comprou uma geladeira lá, bem lembro, meus melhores amigos têm carnê. O problema é que meu sangue, que naquela hora corria mais rápido e parecia que tinha recebido uma injeção de Halls preto sabia que dentro em alguns passos veria sobre aquelas cabeças um par de cornos que me fariam tremer. Tentava desviar, meu pai ria, mais alguns passos surgia aquela figura vestida de forma incompreensível, calças de couro justas, prata, cores, um megafone na boca e caixa de som a tiracolo, na cabeça dois chifres, uma imagem de belzebu e que invariavelmente, não me engano, me dava uma piscada ou ameaçava falar de mim pra que toda a cidade escutasse. Falar que eu tinha medo. Ah, como isso me faz crer no Freud, "lembranças infantis, antes dos 7 anos, usualmente traumáticas" (Freud, 1889), ou qualquer coisa assim, o Freud que é tão pisado hoje, coitado. O Freud me entende.
Fujo dos meus traumas como todos fogem dos seus. Pensando no Freud resolvi encarar esse trauma de infância e desmistificar a figura do cornudo do Bonzão da Felipe Schimitt. Uma análise, análise, digo, de psicanálise. Já faz vinte anos, eu sei, o Bonzão chama Ponto Frio, eu sei, minha perspectiva está lá pelos um e oitenta, um e oitenta e um, depende, mas lá está ainda o cornudo, e venho descendo a Felipe Schimitt e ele parece onipresente, aquela voz anunciando agora talvez um leque maior de lojas, subiu na vida, diriam-me. Mas digo, agora, pra mim, principalmente, ele é um cara normal.
O nome dele é Valdemar e acorda às 6. Acorda de mal-humor um pouco, mas come um pão com manteiga e um café preto sem açúcar e sai porta afora de casa porta adentro do resto do mundo e vai até o ponto de ônibus. Ou perde aquele ou espera muito, inferno, ônibus, que saco. Mas pega a linha Rio Vermelho-Centro, agora baldeada, e fica lá, na viagem de hora e cinquenta, duas horas até um lugar que fica a não mais de vinte minutos. Culpa dessa cidade, cheia de morros: ônibus tem que dar voltas e voltas até chegar ali do lado. Mas pelo menos dá uma olhadinha no mar de manhã cedo, e gosta. Hoje, teve sorte, pegou um lugar sentado e ficou olhando pela janela, pensando nem ele sabe no que, aqueles pensamentos que pulam de um pro outro sem que se queira ou perceba, diria-se daydreaming em inglês, mas que caralho de inglês o que, Valdemar só quer saber dos pensamentos e não me enche os culhões, apertados numa calça de couro. As pessoas já o reconhecem, formam meio que a fraternidade da linha das sete, afinal todo mundo tem que trabalhar todos os dias no mesmo horário. Ninguém gosta, mas todo mundo vai. De ônibus então, nem me fala! As pessoas o reconhecem, mas não é por isso que deixam de olhar, calça de couro, prateado e uma cor ou outra, meio paneleiro como diriam em Portugal, digo paneleiro para não dizer bixa ou viado, porque é politicamente incorreto, ou impoliticamente correto, apesar de todos nós sabermos que bixa e viado não é sinônimo de homossexual. Não é todo dia, muito menos megafone à tiracolo e na mão o chapéu, o chapéu, o chapéu com os cornos! São dois cornos de boi, ou de vaca, comprou uma vez de um sujeito por uns cruzados, mas diz pra todo mundo, claro, que é chapéu de viking. Nessa volto depois.
Chegando no escritório - gostaram desse joguinho com palavras né, o escritório dele é a rua, Que delícia. Delícia nada, hoje tá frio e não tem Valdemar vontade de falar. Mas fala. Não fala, sem antes, contudo, com a destreza com que um rei põe na cabeça uma coroa, daquelas bem de história da Disney, de ouro pontinhas e pedras preciosas, com a mesma destreza com que um rei põe na cabeça uma coroa e com o mesmo peso que uma coroa tem na cabeça de um rei, ele põe aqueles cornos de viking no topo da cabeça. Agora tá ali, assumiu a identidade do Bonzão, e ele põe seus cornos pra fora e acima da manada. Valdemar se metamorfoseou nO cornudo do Bonzão.
E começa: Hoje, só hoje, as ofertas que não vou ficar repetindo porque todo mundo sabe quais são as ofertas de uma loja de eletrodomésticos. Ninguém anuncia as ofertas como o Valdemar, me parece, livre do desemprego por vinte anos, tem que ser bom, mas todo mundo sabe, na verdade. E lá ele anuncia na rua as ofertas; se tem retorno ninguém sabe como medir, quem sabe o que seria do PIB e da economia sem o Valdemar? Ninguém sabe. Mas é claro que vai lá o jornalista perguntar ao dono da loja, ele vai dizer, Sim, é claro, vai puxar um saquinho do cornudo e o jornalista vai botar entre aspas e vai pensar,orgulhoso, Que bonita ficou minha matéria. Pode depois entrevistar o Valdemar e ele vai dizer uma coisa bem óbvia, bota entre aspas encaixa num lugar bem jeitosinho e tá lá do jeito que ele sabia como seria mesmo antes de fazer.
Prometi que falaria do chapéu de viking, e promessa é dívida, estou aqui eu e vou falar agora do chapéu do cornudo. Vamos imaginar um viking. Os vikings são sim aqueles escandinavos que era bons de barco e pegaram o barco e conquistaram quase tudo que era perto do mar na Europa, fala-se muito que conquistaram o norte do Reino Unido, mas até da Rússia tiraram um bocado. Mas por causa da Inglaterra é que ganharam até uma Era, a Era Viking, de quando eles estavam lá, de 790 a 1066, tirei isso da Wikipedia, http://en.wikipedia.org/wiki/Viking. Os vikings existiram mesmo, ao que me parece, estão até na internete, mas, para a surpresa da patuléia, nunca foi encontrada uma só evidência ou nada sequer de que esses polacos, digo, esses galegos, não, quero dizer, eles eram loiros e alvos mas não eram da Polônia nem da Galícia. Eles eram escandinavos, porra. Que confusão esse português, não entende nada de geografia e chama qualquer um de polaco ou galego. Nunca, volto, nenhuma evidência do uso dos chapéus com os cornos. Se à imagem do viking de chapéu o leitor associa a imagem da barba e do cabelão, outra má notícia. Não há nenhuma evidência disso, tampouco. A imagem do viking foi construída durante o Romantismo do século 18. Não só a imagem foi constrúida, mas o nome 'viking' foi (re?)inventado, já que a palavra não existia no inglês da Idade Média. Ou seja, os vikings são uma construção da literatura. Ainda bem que sou jornalista.
E, como jornalista, não construo nada, apenas relato a verdade da forma que aconteceu. E por isso relato toda a verdade sobre o cornudo do Bonzão, para que sirva também como um escape para o meu medo. E por isso falo que não, o chapéu não é de viking, mas sim, Valdemar é um brasileiro sofrido e não desiste nunca, e mesmo quando cai se levanta, porque o Brasil quer ordem e progresso e está nas mãos dos sofridos levar o Brasil para frente. E cada lágrima derramada numa tentativa frustrada e cada gota de suor caída da fronte de um dia de trabalho duro somadas farão o adubo para novas forças do porvir e pra frente nação e seleção do Brasil. Tinha que ser aquelas bestas do século 18, Shakespeare do cacete, não era?, construir um povo, olha que sacanagem!
A verdade me ajuda, de algum modo, a enfrentar meus problemas. Tentarei não desviar da próxima vez que encontrar o cornudo.
sábado, 31 de março de 2007
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Um comentário:
A-D-O-R-E-I!!!!
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