sábado, 31 de março de 2007

Karla, a lente de contato

Oi! Eu sou uma lente de contato, e como toda lente de contato você não pode me ver, sou transparente. Essa é uma das minhas características, ser transparente. Mas não é por isso que eu vou deixar você esquecer de mim.
Nós ficamos juntos uns bons dois meses, não gosto da palavra descartável, mas é assim que sou conhecida. Eu sei que você não quer me tirar porque tenho um grande valor de mercado, mas, benhê, cansa, né. Quero explorar, conhecer o mundo, ver o que tem além dessa sua vidinha de casa-trabalho. Dei azar de cair na sua caixinha. Por isso que nos últimos tempos a gente tem tido aquela briga na frente do espelho, você pega o dedão para me enfiar olho adentro e eu dou um jeitinho de pender para um lado e me escapar. Ou você achava que aqueles lugares estratégicos onde eu me escondia eram obra do acaso? Embaixo da torneira, grudada no espelho, do lado de baixo da beirada da pia, até embaixo do seu queixo me escondia. E vinha mãe, pai, irmão, atrás de mim e procura e procura e sempre me acham. Já tô pensando no próximo lugar.
Daí você me pega, joga um pouquinho dessa solução achando que me limpa, só pra tirar um peso da consciência, porque se você me botar contra a luz vai ver lá aqueles pelinhos que você bem sabe que estão lá mas não sabe de onde vieram. E mais umas gosminhas e tal. Você preferiria não ver, mas você precisa saber se tá me pegando de frente, e pra isso precisa ler o meu 123 e ter certeza que meu 123 não é 321.
E daí você finalmente me cansa e me coloca, eu fico lá, fingindo que esqueci, quietinha. Mas de repente, não mais que de repente, me viro de lado e me escondo atrás do seu olho bem dobradinha. A hora que eu mais gosto de fazer isso é no cinema. É emocionante como você fica bravo e ameaça me jogar pia abaixo. Mas claro que não, você tem que ver o filme, brigamos um pouco mais, e, agora sem solução pra limpar, você me bota no olho e volta pro cinema com aquele inchasso, todo vermelho, e coça, coça, coça, e, não fosse pela pessoa que está com você, deixaria o cinema e iria pra casa. Eu posso ser irritante às vezes.
Mas você não me deixa porque gosta de mim. Imagina só, ter que usar aqueles fundo-de-garrafa. Você não teria problemas comigo no cinema, mas certamente não teria ninguém para acompanhá-lo ao cinema. Fundo de garrafa? Fala sério. Não quero ficar parecendo egocêntrica, mas sou muito melhor do que os óculos.
De você só tenho uma queixa a fazer: você me sufoca. Me deixa respirar, vai. Não me larga nunca, até dorme comigo - bem você sabe e eu sou prova que a oftamologista já falou que não pode. Só de raiva eu suo toda e fico bem sequinha e me grudo com força no seu olho pra quando você acordar dar aquela sensação de não-devia-fazer-isso. As vezes de noite dou até umas cutucadas e uns arranhões na sua córnea, mas você parece que não se toca!
Isso não me faz gostar menos de você, mas vejo que é hora de nos separarmos. Não quero parecer chantagista ou ameaçadora, mas bem conheço uma gangue de fungos que pode vir atrás de você se não me deixar ir. Falo sério. Sempre gostei de você, me dá uma chance de renovar agora, vai. Não importa o que você faça comigo, quero simplesmente recomeçar.

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